domingo, 5 de junho de 2011

Pegada Hídrica: a identificação do consumo de água nos processos produtivos

 

Você já parou pra pensar sobre a quantidade de água necessária para produzir um quilo de açúcar ou de carne bovina? O professor de Gestão de Recursos Hídricos da Universidade de Twente, na Holanda, Arjen Y. Hoekstra, há dez anos, pensou nesse assunto e criou o conceito de “Pegada Hídrica”. Hoekstra também é diretor científico da Water Footprint Network (WFN), uma organização dedicada a promover o uso sustentável das fontes de água doce do planeta. 
Em entrevista por email para o Instituto Ressoar, Hoekstra definiu o conceito de Pegada Hídrica. “A pegada hídrica de um indivíduo, comunidade ou de um negócio é definida como o volume total de água doce utilizada para a produção de bens ou serviços. Ela mostra a apropriação, por parte do homem, das fontes limitadas de água no mundo e providencia uma base para avaliar os impactos da produção de bens e serviços em sistemas de água doce e formular estratégias para a redução desses impactos”, explica o diretor científico da Water Footprint Network.

A WFN desenvolve metodologias para que indivíduos, empresas, comunidades e governos possam identificar as suas pegadas hídricas e passar a desenvolver medidas com o objetivo de reduzir o consumo de água doce, recurso que se torna cada vez mais escasso em todas as partes do mundo.

De acordo com a WFN, o cálculo da Pegada Hídrica de um processo produtivo é dividido em três cores. A Pegada Hídrica verde identifica a quantidade de água da chuva consumida durante a produção, a azul calcula o volume de águas superficiais e subterrâneas utilizadas neste processo e a cinza indica o volume de água necessário para diluir os poluentes de tal forma que a qualidade da água continue acima dos padrões definidos.

Algumas empresas brasileiras, como a Ambev e a Natura, já começaram a desenvolver projetos para identificar a Pegada Hídrica de alguns de seus processos com base na metodologia da WFN. A Ambev, em parceria com a USP/São Carlos, está realizando o cálculo da pegada hídrica na fábrica de Jaguariúna, interior de São Paulo, da produção das latas de 350 ml e garrafas de 600 ml. “Nosso intuito com essa ação é identificar onde estão os maiores gastos de água ao longo da cadeia e, assim, poder desenvolver alternativas de redução de consumo junto com nossos fornecedores e parceiros”, diz Ricardo Rolim, diretor de relações socioambientais da Ambev. “A água representa 95% de nosso principal produto, a cerveja, e, por isso, está no centro das ações de sustentabilidade da Ambev. A sua preservação é essencial para a manutenção do nosso negócio a longo prazo”, completa Rolim.

A Natura é parceira da WFN desde 2009 e o primeiro estudo desenvolvido em conjunto foi um piloto de cálculo da pegada hídrica de dois produtos do portfólio da empresa de cosméticos, com o objetivo de compreender melhor os impactos e a aplicabilidade da metodologia. “Os primeiros resultados nos permitiram entender quais são os pontos críticos de impacto nos recursos hídricos ao longo da cadeia de valor da empresa e entender as limitações da metodologia do WFN”, aponta Janice Cassara, gerente de sustentabilidade da Natura. Este estudo piloto foi concluído em 2010. “Neste momento, estamos realizando pesquisas complementares de aprofundamento e discutindo internamente como será utilizada e aplicada a metodologia para construir uma estratégia corporativa no tema de uso sustentável dos recursos hídricos”, completa Cassara.

O professor Hoekstra indica que os benefícios trazidos às empresas que aderem ao cálculo de suas pegadas hídricas vão desde a redução do consumo de água e a contribuição para a manutenção desse recurso natural ao fortalecimento da marca perante o mercado, ao ser identificada como uma iniciativa preocupada com questões socioambientais. Para a gerente de sustentabilidade da Natura o tema deve rapidamente se tornar prioritário no mundo corporativo. “As empresas serão cada vez mais questionadas por seus impactos nos recursos hídricos, assim como ocorreu com o tema de mudanças climáticas”

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