segunda-feira, 6 de junho de 2011

CHUVA E RESENHA




Chuva e resenha

Já pensou se a cada fim de mandato a mídia convocasse um time de críticos literários para fazer a resenha definitiva da obra dos governantes? Uma resenha do governo Lula, outra do governo Luiz Henrique da Silveira. Imagine uma de Dário Berger à frente da prefeitura de Floripa:
“O governo começa bem, sem muitos erros, e até convincente. O primeiro volume, por exemplo, apresenta de forma no mínimo correta todos os personagens principais, seus méritos e suas dificuldades. O enredo é esboçado por meio de algumas obras que, executadas, explicitam prioridades que em nada, ou muito pouco, se distanciam do prometido na campanha. Com o correr das páginas, porém, a estrutura passa a apresentar incongruências, a história fica confusa e os protagonistas são substituídos aos poucos por sujeitos obscuros, que ninguém conhecia. Já no segundo volume, o capítulo da árvore de Natal milionária parece dar ‘liga’ a tudo o que de esquisito acontecera na cidade, mas também é o ponto de ruptura: adeus verossimilhança. A partir da instituição da cobrança de Zona Azul nas praias da cidade, então, a obra perdeu completamente o sentido e naufragou em todos os aspectos. Revisão zero: erros de português em todas as páginas.”.
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O filme começara chato, transcorria chato. Imagine que o diretor, sem ter o que fazer da vida, resolvera dar um verniz diferente a um dos heróis da literatura inglesa (de seu país, portanto) e mundial. Então ele pegou Sherlock Holmes e o transformou em uma espécie de Batman do fim do século 19, e seu ajudante Watson em uma mistura de Robin e Alfred sem rugas. O cavaleiro das trevas da esfumaçada Londres daquela época cria seus próprios ardis, fabrica suas próprias armas em sua batcaverna confortável em Baker Street 221b. Impossível que o resultado dessa transmutação fosse bom, ou pelo menos aceitável: o filme é intragável. Era tarde e estávamos deitados em um colchão no chão da sala, as luzes apagadas e a porta da sacada aberta para o ar da noite. Analisávamos nossas opções ruidosamente, falando ao mesmo tempo: poderíamos trocar de filme e procurar algo para assistir na TV, trocar o filme por música etc. Foi quando ela disse “desliga tudo”, e eu obedeci. Havia começado a chover forte, e nós ficamos os 15 minutos seguintes sem dizer uma palavra, como se estivéssemos tomando banho de chuva ao ar livre.

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