sexta-feira, 24 de junho de 2011

Cerimônia de união homoafetiva reúne 43 casais no Rio de Janeiro




O casal João Silva e Cláudio Nascimento foi um dos que selaram a união no evento
Sobre tapete vermelho e embalados ao ritmo de “Emoções”, de Roberto Carlos, 43 casais gays participaram da primeira cerimônia coletiva de união homoafetiva no Rio de Janeiro. A celebração foi realizada no auditório do Programa Estadual Rio sem Homofobia, no prédio da Central do Brasil, no Centro da capital, na tarde desta quarta-feira (22).
Apontada como uma cerimônia histórica que “servirá como estímulo para que muitos casais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) registrem futuramente suas uniões com muito orgulho, sem culpa, sem medo”, a celebração reuniu dezenas de familiares dos casais – não faltaram pais, mães e filhos dos noivos e das noivas.As uniões foram oficializadas pelo desembargador Siro Darlan. “Mais uma vez o amor e o companheirismo são os responsáveis por grandes façanhas”, comemorou o superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos do Estado, Cláudio Nascimento, gay assumido.
Atenção especial recebeu o casal Léo Mendes e Odílio Torres que, na última sexta-feira (17), teve sua união estável homoafetiva anulada pelo juiz da 1ª Vara de Goiânia, Jerônymo Villas Boas – revogada nesta terça-feira (21) pela corregedoria de Justiça daquele Estado.
“É um momento de dupla felicidade. Somos o primeiro casal no mundo a ter a união estável registrada duas vezes”, comemorou o jornalista Léo Mendes, de 47 anos. “O que aconteceu com a gente mostra como é grande o preconceito que ainda temos de enfrentar dentro da própria Justiça”, afirmou.


O estudante Odílio Torres e o jornalista Léo Mendes: "É uma dupla felicidade"
Léo e o estudante de jornalismo Odílio, de 21 anos, se conheceram em Palmas (TO), há cerca de dois anos. A paixão fez com que o estudante deixasse o Estado de Tocantins, onde morava, para ir atrás de Léo em Goiânia (GO). Desde então, não se separam mais. “Estou nervoso hoje. Celebramos muitas conquistas aqui”, disse Odílio, que se apresenta como evangélico.
Noivas vestidas de noivas e “de noivos”
Há dois anos e meio, a supervisora de vendas Flávia Nogueira e a coordenadora de marketing Elizabeth Cunha, tiveram a união – que hoje chega a cinco anos – selada pela mãe de santo Flávia Pinho em um terreiro de umbanda. Nesta quarta-feira, as duas vestiram, cada uma, seu vestido de noiva - ambos brancos - e comemoraram a possibilidade de oficializar judicialmente a relação.
“Nós já somos casadas, fizemos nosso casamento na umbanda. Nossa religião nos aceita. Hoje viemos aqui para participar da História, é o reconhecimento do nosso direito”, emocionou-se Elizabeth. “É um marco, uma conquista. Eu sou parte da sociedade, tenho direitos”, festejou Flávia.


Juntas há cinco anos, Elizabeth Cunha e Flávia Nogueira oficializaram a união
Unida há 16 anos à costureira Ana Cristina Soares dos Santos, de 43 anos, a agente de endemias Cátia Cilene dos Santos, de 42 anos, também participou da cerimônia “a caráter”. Porém, em vez do vestido branco, como optou o casal Flávia e Elizabeth, ela preferiu o fraque. “A Ana fazia mais questão de casar do que eu. Mas já que é importante para ela, resolvi fazer bonito”, contou Cátia, que criou três dos cinco filhos de Ana.
Apoio de pais e filhos
Na juventude, a aposentada Célia Maria Dias dos Santos, de 67 anos, disse que mal encontrava jeito para falar sobre a opção sexual da irmã, lésbica assumida. Mais de quatro décadas depois ela, orgulhosa, compareceu ao casamento da filha, a psiquiatra Cláudia Aparecida dos Santos, de 42 anos.


A aposentada Célia Maria dos Santos entre os netos: "Estou me atualizando. Acho que sou moderna", disse sobre o casamento da filha
“Elas estão juntas há 20 anos. Essa união é o certo, é o que têm de fazer”, opinou. “Não recebi a notícia com felicidade. Sou muito católica e, por isso, foi difícil. Mas estou me atualizando. Acho que sou moderna”, comentou, recebendo, em seguida, abraço de quatro netos – dois deles filhos adotados pela filha Cláudia.
Na última fileira de cadeiras do auditório da Central do Brasil – por falta de lugar na frente – o aposentado Gilberto Machado da Silva, de 60 anos, estava com a máquina em punho. Não queria perder o momento em que a filha caçula, Esther da Silveira Silva, de 27 anos, diria “sim” à sua parceira.

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