segunda-feira, 6 de junho de 2011

A maldição do amianto





Condenados pela fibra cancerígena, centenas de ex-trabalhadores da Eternit e da Brasilit lutam por indenizações na Justiça

Eliane Brum (texto) e Raphael Falavigna (fotos)
Sebastião Alves da Silva, de 64 anos, exibe na penteadeira do quarto uma fotografia em que aparece dançando com a esposa, Irene. Gosta de mostrar o retrato às visitas. É a prova do tempo em que respirar era um ato normal para o ex-operário da Brasilit. Sebastião não pode mais dançar. Caminha com dificuldade, mesmo por poucos metros. Tosse a cada passo. Perdeu uma fatia do pulmão esquerdo, retirada com um tumor cancerígeno há dois anos. Faz exames a cada três meses para rastrear uma possível metástase. Tem asbestose, doença que vai endurecendo o pulmão até transformá-lo em pedra. Mal lento, progressivo, incurável. Padeceu de tuberculose, teve quatro pneumonias. Sebastião é uma das centenas de brasileiros vítimas do amianto. Luta na Justiça, ao lado de 300 trabalhadores que movem ações contra a Brasilit e a Eternit – ligadas à francesa Saint-Gobain, gigante que domina mais de 50% do mercado brasileiro da fibra maligna.

A guerra do exército dos vencidos pelo amianto foi viabilizada pela incorporação de uma paulista de Ribeirão Preto decidida a desempenhar corretamente suas funções. Aos 43 anos, Fernanda Giannasi, auditora fiscal do Ministério do Trabalho, tornou-se o símbolo da luta pelo banimento do mineral cancerígeno no Brasil. Ao debruçar-se sobre os efeitos da fibra no exercício da profissão, Fernanda descobriu Sebastião.

Fernanda deparou também com Severino, Antônio, João Batista e centenas de outros operários acuados pela falta de ar e pelo medo. Poderia ter passado ao largo do drama, mas decidiu enfrentá-lo. O preço que paga por desafiar interesses econômicos portentosos é alto: ameaças de morte, perseguições fora e dentro do trabalho, interrogatórios por arapongas a serviço da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Recorre a antidepressivos, prepara-se para extirpar o terceiro tumor, entrou precocemente na menopausa. Mais respeitada no Exterior que no Brasil, é vista nos Estados Unidos e na Europa como uma versão tropical de Erin Brockovich, personagem que valeu a Julia Roberts o Oscar de melhor atriz de 2000. Em 1993, Erin, uma funcionária curiosa de um obscuro escritório de advocacia, topou o duelo com a Pacific Gas and Electric e ganhou a maior ação direta numa corte americana. A luta de Fernanda e das vítimas do amianto ainda está sendo travada. E longe do fim.

O amianto – ou asbesto – foi um dos minerais mais utilizados pela indústria durante o século passado. Está em caixas-d’água, lonas e pastilhas de freio dos carros, telhas e pisos, tintas e tecidos antichamas. Tão resistente quanto o aço, é imune ao fogo. A Brasilit e a Eternit foram as duas principais fábricas que desembarcaram no Brasil no final dos anos 30. Empregavam famílias inteiras em Osasco e São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. A corrente que um dia foi motivo de júbilo tece hoje uma trama de sofrimento e morte.

O mineral cancerígeno foi banido de 21 países, entre os quais a França e a Itália. No Brasil, quarto produtor mundial, está proibido em cinco cidades paulistas – Mogi-Mirim, São Caetano do Sul, Osasco, São Paulo e Bauru – e em Mato Grosso do Sul. O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, anunciou que até 2003 a fibra seria proibida em todo o território nacional. Na semana passada, achou mais confortável transferir a decisão para o Congresso. Os interesses em jogo movem tanto empresários do setor quanto o tucano Marconi Perillo, governador de Goiás, que abriga a única mina de amianto da América Latina. Outro forte adversário do banimento é Carl Sweet, diretor-presidente da Sano, indústria que produz telhas e caixas d’água no Rio de Janeiro. “O uso do amianto deve ser controlado, e não banido”, diz. “Em nossa empresa, trabalhamos com risco zero.”

Quando o Brasil se decidir a trocar o material por fibras sintéticas, terá de planejar a substituição do amianto existente em 70% das casas. O pó que se desprende dos equipamentos pode, se inalado, alojar-se no organismo e disseminar doenças. Ao contrário do que os representantes da indústria têm repetido, o efeito cancerígeno do amianto foi diagnosticado há quase um século, em 1906, pelo médico francês Armand Auribault. Os males causados pela fibra podem levar de 15 a 50 anos para se manifestar. “Ainda que o amianto seja banido do Brasil, o pior está por vir”, afirma Eduardo Algranti, pneumologista da Fundacentro, órgão do Ministério do Trabalho. “A medicina vai ter muito trabalho nas próximas décadas.” Mesmo na indústria, há poucas dúvidas de que o material cancerígeno venha a ser extirpado do país. A presidente da Associação Brasileira do Amianto, Maria Cecília de Mello, considera irreversível a substituição do mineral. “Discutir se o amianto faz ou não mal à saúde é uma questão ultrapassada”, diz. “Se o mundo inteiro deixar de consumir a fibra, não teremos a quem vendê-la.”

Para operários como Sebastião, a batalha tem por objetivo garantir-lhes um fim de vida digno enquanto tentam adiar o desfecho. Ele trabalhou 29 anos com o produto na antiga fábrica da Brasilit, em São Caetano do Sul, no ABC Paulista. Entrou lá com 16 anos, deixou-a ao aposentar-se. Em troca da saúde, a empresa lhe propôs R$ 15 mil e um plano de assistência médica. Sebastião recusou-os. “Trabalhava das 6 às 18 horas, de domingo a domingo, e batia no peito de orgulho por ser empregado da Brasilit”, conta. “Nunca me falaram que o amianto fazia mal. Uma manhã vieram aqui e me ofereceram essa indenização humilhante.” Vive da aposentadoria de R$ 350 e teme tombar antes de assistir ao fim da guerra. Como a maioria dos companheiros, Sebastião não sabe quando, mas sabe como vai morrer: amarrado a um tubo de oxigênio, sem ar. “Só quero morrer nesta casa, que é todo o patrimônio que tenho”, diz. O lar de Sebastião é revestido de amianto. Da mesma fibra é feito o assentamento da rua em que vive, um presente da fábrica que recebeu com gratidão. De amianto é a casa e o que restou do pulmão do operário.

Em 1983, Sebastião vivia o primeiro ano de aposentadoria. Depois de trabalhar por três décadas entre nuvens de asbesto, encerrara a jornada satisfeito por ter alcançado o ápice da carreira de operário: encarregado de seção. Recém-formada, a engenheira Fernanda Giannasi estava desiludida em outra ponta de São Paulo. Havia cursado o Instituto Politécnico de Ribeirão Preto para pesquisar novos materiais, mas não conseguia emprego.

Sem saída, inscreveu-se no concurso para o ministério. Foi aprovada. No primeiro dia, assustou-se com o cenário sonolento do local de trabalho. “Não vou tomar posse”, informou ao pai, que a acompanhava, preparando-se para dar meia-volta. Foi convencida a, pelo menos, tentar. O Brasil vivia a transição para a democracia e os novos fiscais estavam imbuídos da idéia de romper com a tradição do regime militar que colocava os funcionários do ministério a serviço das indústrias – e contra os sindicatos. Decidiram criar grupos para investigar as doenças do trabalhador. O empenho com que Fernanda se concentrou nos efeitos do amianto resultou num convite para o encontro internacional sobre as conseqüências nocivas da fibra realizado na Itália, em 1993. Ali, os participantes constataram que enfrentavam os mesmos gigantes do mercado mundial. No ano seguinte, 1994, foi organizado um seminário internacional em São Paulo. Formava-se a Rede Virtual Cidadã pelo Banimento do Amianto. Anunciava-se, para Fernanda e os operários, uma luta desigual.

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